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Trote

Uma das minhas diversões favoritas quando tinha uns 16, 17 anos era passar trotes para garotos interessantes (ou nem tanto assim). Juntava-me a uma amiga e ficávamos tardes e mais tardes jogando conversa fora com os moços. Inventávamos histórias, nomes, situações. Era divertido. Era sensual. Quase nunca era inocente.

Depois de um tempo eu já estava tão craque que era difícil o rapaz não cair na minha lábia. E não, não serei modesta. Foi em uma dessas paqueras por telefone que eu conheci o Tony. Ele era amigo do namorado de uma amiga. Nem lembro o porquê de começarmos a conversar, só sei que era bom. Ele tinha uma voz cheia, segura e era muito divertido. Tinha certeza que ele era bonito. Já ele não tinha tanta certeza assim e me pediu uma foto. Eu enviei. Ficamos sem nos falar por dias…

Até que chegou um final de semana de verão e a minha amiga e o namorado decidiram que todos deveriam ir à praia. Eu topei. Ele também. Como eu já imaginava, ele era lindo. LINDO. E charmoso. MUITO. Considerando o gelo que ele me deu depois que eu enviei a foto, passei as três horas seguintes sendo apenas a amiga divertida e inteligente. Rimos muito, brincamos bastante, conversamos sobre um zilhão de coisas. Ficamos bem à vontade um com o outro mas não notei qualquer tipo de flerte da parte dele. Ok. Não se pode ganhar todas, certo?

Chegando à praia, já era tarde e nós fomos a pracinha central olhar o movimento. Como era um feriadão, vários amigos também estavam por lá. Um deles me ligou. Tony era lindo mas não estava me dando bola, o amigo sim. Disse que iria dar uma volta e sumi pelo resto da noite.

Na manhã seguinte Tony mal falou comigo durante o café da manhã. Achei super esquisito. Decidi voltar de carona com o paquera e no meio do caminho minha amiga me ligou. Contou que Tony havia me esperado a noite inteira. “Ele disse que estava doido para te beijar e tu sumiu! Sumiu!”. Eu sumi. E quis sumir de novo quando ela me disse isso.

Tony e eu nunca mais nos falamos. Hoje em dia prefiro acreditar que ele me passou um trote. Dói menos.

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Anônima

– Oi, preciso falar com você, me liga.

Ela leu a mensagem em seu celular e franziu o cenho. Não havia assinatura, o número também não estava salvo na agenda. Perguntou quem era e teve como resposta a mesma mensagem anterior. Arredia, decidiu que não ligaria para aquele número. Pensou que provavelmente era um ex-namorado ou alguma namorada ciumenta. A segunda opção lhe pareceu mais acertada.

No dia seguinte, nova mensagem. “Esse número está no meu celular, queria saber quem é”. “O seu número não está no meu, também gostaria de saber quem é…”, respondeu.

Por dois dias o número ligou e ela não atendeu. No terceiro dia deixou o telefone tocar algumas vezes:

-Alô.

-Oi, quem é? (voz masculina)

-Com quem você deseja falar?

-Bom, é que esse número estava registrado no meu celular, queria saber de quem é.

-Imagino que tenha sido um engano, não reconheço sua voz. Nem seu número.

-Eu também não reconheço a sua, mas cada vez mais tenho vontade de conhecer a dona. (voz sedutora)

-Você é realmente uma pessoa curiosa! (risos)

-Não costumo ser tão insistente, mas você me deixou curioso. Qual o seu nome?

-Desculpe, prefiro continuar anônima. Adeus!

E ela desligou. O número continuou a ligar por mais alguns dias, depois desistiu. Às vezes ela se pergunta porque não deu uma chance ao desconhecido, a voz era bonita, ele podia ser legal, interessante, quem sabe? Acaba se convencendo de que ele era irritantemente curioso. E ela não.


Dans Paris

Semana passada eu assisti a uma comédia romântica francesa chamada “O amor dura 3 anos”. O filme é legal, leve, o tipo de humor que me agrada porque os personagens conseguem rir de si mesmos, fazer piada de suas própria vidas, mas de uma forma natural, sem ser forçado, sabe? Adoro quem sabe rir de si mesmo, acho, inclusive, uma coisa extremamente sensual. Quem quiser um resumo da história pode procurar em outro blog, o que eu achei interessante, e vou mencionar por aqui, foi a forma como a figura feminina foi tratada. A figura feminina infiel, para ser bem específica.

A personagem principal, mulher linda, encantadora, arrebatadora, bem humorada, inteligente, nada ciumenta, do tipo de mulher que não existe todos os homens desejam, apaixona-se pelo primo do seu marido. E trai o marido. E vai viver com o primo. E se sente traída pelo primo. E volta para o marido. E o marido a recebe de volta sem problemas, sem traumas, sem “você me traiu com o meu primo, nunca vou te perdoar!”, ele simplesmente a aceita de volta sem dramas, sem cobrança, sem mimimi. Gente, achei a cena tão libertadora!

Veja bem, não estou aqui defendendo que as mulheres saiam por aí traindo seus maridos, longe disso! O que eu quero destacar é que nem sempre uma traição é o fim do mundo. E nem que o traidor precisa ser esculachado para o resto da vida. Principalmente se o traidor é uma mulher. Porque vamos ser sinceros, mulher que trai o marido é o diabo na terra! É a pior das criaturas! É Eva! E se o marido resolve perdoar a traição, passa a ser considerado o corno manso, o fraco. No entanto, quando é o contrário, marido traindo a mulher, o perdão é plenamente aceitável, esperado até… Existe isso?Infelizmente sim. Talvez por isso a cena tenha me agradado tanto. Houve traumas, houve perdão.  E a vida seguiu em frente, sem neuras.

Já me disseram que em Paris é assim. Não deve ser para todo mundo, lógico, mas achei tão legal, como eu disse, tão libertador. Porque o que mais vejo é gente se apegando a convenções sociais, comportamentos preestabelecidos e aceitos pela sociedade e esquecendo de fazer o que tem vontade. Agir de acordo com o que elas acreditam ser o melhor para si.

Sua parceira te traiu e se arrependeu? Ou não se arrependeu, mas decidiu que te quer de novo? Se você ainda a ama e tem vontade de continuar com ela, não deixe que a sociedade te reprima. Faça o que seu coração mandar. Vá ser feliz! Ou pelo menos tente. Mas esqueça o passado! Se for para ficar remoendo a traição, melhor partir para outra, não se iluda. Tem que ser muito desencanado, eu sei, despir-se do orgulho próprio também,  mas o amor é assim. Se valer a pena, comece do zero. E viva! Paris é aqui.


No provador

-Amor, esse bikini ficou bom? (a parte de cima é G e a de baixo M)

– A parte de cima está muito, muito bonita! A de baixo eu não sei… Não está pequena não?

– Achasse? Tava pensando em comprar um modelo fio-dental…

(silêncio)

-Olhando direitinho, o conjunto todo está muito, muito bonito! Vamos levar?


Primeiros passos

Ele era o menino mais bonito do bairro. O mais bonito que eu já havia visto. Não só por sua beleza física, mas por uma masculinidade intensa que ele exalava por todos os poros. Tinha jeito de homem que pegava de jeito. Talvez por isso minha vontade de pegá-lo crescia a cada encontro. Mas ele não fazia ideia de quem era a menina raquítica e descabelada que o admirava. Eu era feia e desajeitada, inteligente e cínica também. Mas pouco atraente.

Depois de muita observação, percebi que o físico não importava para aquele rapaz lindo e engraçado, que possuía no currículo todos os tipos de garotas. Ele era um predador e isso me atraía muito mais do que me causava repulsa. E eu só tinha 14 anos…

Possuíamos muito amigos em comum, e, na época, pedir para alguém intermediar a paquera era o caminho mais fácil. Porém, apesar de saber que a tática funcionaria, acreditava que isso não era suficiente para impressionar o rapaz. E eu queria ser marcante. Não importava a forma.

Descobri onde ele morava e decidi fazer uma visita. Ele me atendeu e de cara perguntou o que eu queria. Mudei de assunto e nos pusemos a conversar. Conquistar pelo papo sempre foi o meu forte. Ainda não sabia o que significava a palavra flertar, mas instigar os instintos daquele garoto com palavras me pareceu extremamente divertido. Muitas risadas, olhares e toques casuais, ele voltou ao início e perguntou novamente o que eu queria:

-Eu quero você.

(silêncio)

-O quê?

_ Eu quero você.

-Uau! (olhos arregalados)

(silêncio)

-Posso te levar em casa? Ele perguntou, 30 segundos depois.

-Claro!

(…)

-Ei, minha casa é pra lá!

-Eu sei. Vem cá!

Então ele me beijou. E eu senti no beijo que ele me queria tanto quanto eu o queria. Engraçado que isso faz muito tempo, mas ainda hoje, quando fecho os olhos, consigo lembrar do meu coração acelerado, da rua escura, da língua desbravadora dele, das mãos firmes e experientes que me guiavam e de toda a vontade que eu sentia de me perder nos braços daquele moço viril. Os beijos foram suficientes para me deixar em chamas. Eu estava satisfeita. E orgulhosa. Nascia uma acosadora.

 


Acosadora

Acosar é uma palavra espanhola que significa perseguir. Quando a ouvi pela primeira vez, a perseguição tinha um teor sexual, uma amiga estava sendo paquerada de uma forma bem agressiva, quase rude. Mas não, ela não estava incomodada, muito pelo contrário! A moça se sentiu lisonjeada. O rapaz a queria e demonstrava isso com bastante clareza, o que agradou a minha amiga. Daí me peguei pensando que se fosse o contrário, uma mulher “acosando” um homem, provavelmente essa brutalidade seria encarada como sinônimo de permissividade. Estaríamos diante de uma mulher fácil, uma galinha, na visão masculina. E sim, vou generalizar, porque observo esse tipo de reação diariamente.

Apesar disso, adorei a palavra, seu significado e as diferentes reações que um acosador pode causar. No caso específico do blog, que uma acosadora pode causar. Porque aqui, a perseguição é feminina. Eu acredito que nem toda perseguição é nociva. Mas às vezes é melhor que seja. Dúbio? É essa a intenção.